Criações literárias

22. set, 2017

Inúmeras foram as tentativas de preencher formalmente as páginas daquele caderno que lhe fora oferecido pela pessoa que mais influência teve no seu crescimento, o seu pai.

Empenhava-se ainda em completar os estudos que lhe viriam a fornecer uma série de conhecimentos que sustentariam um progressivo desenvolvimento intelectual, quando percebeu que uma grande mudança se avizinhava após a partida dos seus pais para uma missão atípica no norte do país na qual lhes competiria desmantelar uma rede de tráfico humano, que acabou por lhes custar a própria vida.

Samuel, ainda numa fase frágil da sua vida percebeu que teria de crescer mais rápido do que a idade lhe permitia.                                                                                                                  

Após um longo período de incredibilidade dolorosa sucedeu a urgência de aprender a lidar com dor da perda daqueles que lhe deram a maior dádiva, a vida.                            

A sua aptidão para a escrita nunca passara despercebida para aqueles que tinham o privilégio de ter acesso aos mais diversos géneros literários exigidos pelo ensino.

As suas palavras deslizavam suavemente sobre a sua mente e proporcionavam alguma satisfação para os seus leitores. Esta habilidade, já um pouco esquecida no meio do novo leque de responsabilidades que a vida lhe atribuíra até então, viera a renascer quando o seu avô o encorajou a traçar uma série de objetivos pelos quais teria de lutar para se reabilitar de tamanha perda que acabara de sofrer.

Num final de tarde, em que a luz solar já pouco se fazia notar, Samuel regressava a casa enquanto relembrava as palavras proferidas pelo seu pai numa tentativa de o reconfortar após o fracasso num dos primeiros jogos de futebol que tanto empulgavam aquele doce menino de tenra idade

"A vida nem sempre nos dá aquilo que queremos, mas sempre nos ensina a fortalecer-nos e a conhecer a imensidão de capacidades que possuímos" disse seu pai quando encontrou seu filho num profundo estado de desânimo. (Estava um pouco longe de pensar que esse seria um ensinamento ao qual seu filho atribuíria o maior reconhecimento.) Nunca antes uma frase lhe causou tanto impacto.

Uma das suas capacidades emergentes foi conseguir perceber que o amor não está na posse, mas sim no sentir. Ele sentia tanto. Sentia que não estáva só e que, na verdade aquele amor nunca iria cessar, porque todo ele era feito de momentos. E momentos ficam na nossa história, para sempre. 

Foi sob reflexão consciente das palavras um dia recebidas que percebeu que chegara o momento de despertar a sua capacidade de resiliência.

Através das suas produções escritas, Samuel chegou à ilação que é possivel transparecermos um pouco de nós para uma simples folha em branco, alimentando a ideia de poder partilhar com o máximo número de pessoas a possibilidade de mudar o rumo das suas vidas, mesmo em circunstâncias um tanto incapacitantes.

Impossível era negar a importância que o tempo teve no decorrer de tudo isto.  Finalmente, podia comprovar o facto de o tempo ajudar a curar feridas. Novos interesses ocuparam sua mente e numa dessas viagens que fazia ocasionalmente ,como forma de contactar com novas realidades, conheceu alguém que acabaria, mais tarde, por ver nele  uma pessoa profundamente interessante e inspiradora.

Era seu hábito escrever sobre diversos temas conforme situações que presenciava. E dessa vez, tudo se resumia num romance, sem qualquer dificuldade de inspiração. Ali nasceu uma nova forma de amar.

Talvez a sua história de vida tenha começado a adquirir um pouco de sentido naquele preciso momento em que ambos se cruzaram naquele café no final da rua onde se encontrava hospedado, cujo espaço acolhedor o convidou a sentar, tomar um café com duas pedras de gelo e a escrever.

O tempo passou, mas não deixava margem para dúvidas de que, os dois se amavam mesmo antes de se terem. Porque como a vida lhe ensinou outrora, o amor não está no possuír mas talvez, neste caso, na simples contemplação. Contemplação, pelo menos até que a vida lhe revelasse algo mais.

Diana Barbosa

15. nov, 2016

A superficialidade nas relações interpessoais como um processo inconsciente.
Várias foram as questões que coloquei a mim mesma, relativas a este aspeto da superficialidade, e várias foram também as pesquisas que fiz para não deixar as questões que teimavam em atormentar o meu estado pacífico, sem resposta.
Nos momentos em que caiu em reflexão profunda confesso que a minha mente se transforma numa especie de espaço, onde vagueiam cometas nas mais diversas direções.
As relações já não são vividas na sua plenitude e com a verdadeira intensidade. Eu considero pertinente a hipótese de estarmos a tornar-mo-nos numa socidade que se limita a manter a superficialidade. Esta talvez seja reflexo de situações passadas, marcadas por desilusões e sofrimento que interferem, agora, na forma como nos relacionamos.
Com que frequência se ouve dizer olhos nos olhos : "Quero que venhas comigo!" "Fica." "Fazes toda a diferença!"? Pouca, muito pouca. As pessoas já não fazem questão. Talvez achem que isso é demasiado "lamechas", ou que irá transparecer a necessidade que elas têm de ter alguém que realmente fique por perto.
As relações profundas, inteiras e intensas deram lugar a um grupo mais alargado de amigos, onde há sempre alguém disponível a colaborar em algum projeto. As pessoas têm MEDO de se entregar, com transparência, a outra pessoa. Entregam-se sim, mais facilmente, mas só e unicamente para satisfazer necessidades momentaneas. Aparantemente, esta forma de viver as relações (amizade, amor,...) é a mais fácil mas até que ponto isto poderá proporcionar (a aparente ) felicidade?!
Hà que repensar os nossos valores e ideias e deixar o passado bem lá atrás, porque há sempre alguém que tenta caminhar ao teu lado, querendo criar um vinculo puro, forte e verdadeiro.
Momentos de loucura, de entrega, de intensidade, de rir até doer a barriga, de sorrir com o olhar, de brincadeiras na áreia, na chuva , na água, (...), passar por todos os momentos juntos, não têm preço!! E são esses que te vão acompanhar ao longo da tua vida e que vão fazer com que te sintas vivo. Eles vão estar presentes e os protagonistas desses momentos vão estar presentes, até ao teu último suspiro. Mas isso vai acontecer só com as relações que construíste de forma plena.
Diana Barbosa.

15. nov, 2016

Há um certo prazer ao perceber o decorrer do tempo. Sentir o gosto de saber que houve proveito em tudo por onde passamos, nas emoções que sentimos. A vida me percorre todas as veias, e eu estou aqui, com tudo ao meu alcance para realizar todos os objetivos. Para passar dias sem dormir. Para dançar até já não sentir o corpo. Para cantar até ficar sem voz. Para percorrer as ruas até então desconhecidas. Sentir tudo, de todas as maneiras. Sim. Porque até sentir dor, saudade e sofrimento é digno, é o que nos torna humanos. É uma panóplia de sentimentos. O mau é necessário para perceber o quão gratificantes são crtos momentos e para aprendermos a valorizar. Muita gente procura evitar qualquer tipo de dor, e para que tal se torne parcialmente possivel, não lutam pelo que realmente amam, fogem do que no final valeria a pena e perdem tanto nas suas vidas.
Enquanto houver tempo para viver, há tempo para correr nas mais diversificadas florestas, pelos desertos, conhecer culturas, pessoas, plantas, lugares, (…),  e tudo a torna nosso numa infinita entrega. - DIANA BARBOSA